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O Dia de Saturno, por Diego Mendonça

   O autor Diego Mendonça já foi publicado duas vezes na Literomancia, e recentemente tivemos acesso ao seu livro de estreia, O dia de Saturno, publicado pela Cartola Editora. Com a humanidade a beira da extinção após um inverno nuclear criado para conter a “Praga de Saturno”, Liliane se vê em uma luta desesperada pela sobrevivência ao lado do seu cão Fenrir. Destaca-se na personagem o fato de ela ser um espelho do mundo: ela está suja, machucada, faminta, com medo de estar enlouquecendo e constantemente pronta para tirar a própria vida. Ainda assim, ela persiste e luta com uma força que não sabemos de onde ela tira, mas que prova o tempo todo que ela é uma verdadeira guerreira.

Olá, Diego. Primeiro, gostaríamos de começar sabendo mais de você: de onde você é, quais as influências, a base de quê seu cérebro de escritor se sustenta?

R: Buenas! Sou nascido e criado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Pouco saí do estado, mas conheço bastante dele, de leste a oeste, norte a sul.

Minhas influências variam com o tempo. Quando comecei a escrever, eu lia muita fantasia. Devorei os 7 livros de Nárnia. Quando comecei a me aprofundar na leitura, tomei gosto pelo horror e, consequentemente, mergulhei na bibliografia do Stephen King. Hoje leio bastante ficção científica, e já encarei todos os medalhões possíveis desse gênero. Acontece que agora eu tento seguir um caminho diferentão, tentando trazer o bizarro e o reflexivo para as minhas obras. Conheci recentemente um autor americano muito famoso, de bagagem ampla e bastante premiado, mas que no Brasil é um desconhecido. Até cheguei a fazer um conto homenagem a ele no volume 5 da Literomancia, e o nome do autor é Harlan Ellison. Esse cara era doidera pura, transgressivo e tinha a pretensão (consciente mesmo) de revolucionar a parada toda. E ele fez isso, já que é tido como um dos pais da era New Wave da ficção científica. Ele tem um caráter que muito me encanta e me identifico, que é a retratação da violência bruta, mas de forma reflexiva. A ficção científica/horror dele é um troço que te pega pelos cabelos e te mostra umas verdades cruas, que tu não quer ver, mas que tu observa com terror, abismado. Além disso, ele é muito criativo. Leiam, por exemplo, o conto Não tenho boca e preciso gritar (que é o único trabalho dele que tem no Brasil), aí entenderão o que eu quero dizer. É isso o que eu quero pra minha escrita, essa agressão reflexiva, muito disso eu já executei em O dia de Saturno, embora de forma bem mais amadora.

Antes das perguntas sobre a história, você poderia nos contar um pouco sobre como foi o processo de publicação com a editora?

R: Eu já era da Editora Cartola por ter sido aprovado com alguns contos anteriormente, e meses antes da HorrorExpo 2019, os editores falaram para os autores da casa, no grupo do WhatsApp da editora, enviarem originais para avaliação. Eu submeti e, felizmente, fui aprovado.

Você retrata muito bem o sofrimento da personagem, nós não vemos a Liliane como uma sobrevivente por sempre vencer os desafios, mas sim pela forma como ela lida e resiste aos constantes revezes. Como se deu a criação dela?

R: Eu considerei tudo, os menores detalhes. Dentes podres, pelos das axilas e púbis grandes, cabelo encaroçado de sujeira… Ela estaria esquelética de fome por comer pouco, mas já teria se acostumado. Gente que ainda vive depois de tanto sofrer, de passar tão perto pela morte várias vezes, sofre sequelas. É natural. Gente com experiências mais brandas às vezes ficam traumatizadas, então, no caso de Liliane, ela simplesmente ficaria tendo uns lampejos de sanidades e insanidade. Ela tem o escoro do cachorro Fenrir, pois cuida dele, é o seu melhor amigo. Ele é o elo que Liliane tem para se prender ao passado distante que teve, quando o mundo ainda podia ser chamado de “mundo”. Não vou entregar nenhum detalhe, mas provavelmente consideraria “O dia de Saturno” dentro de um subgênero da ficção científica que se chama Dying Earth. Então, oscilar o temperamento, não sendo uma completa louca, me pareceu ser o mais correto.

O Vicente, o jovem que acompanha Liliane, é outro personagem incrível da história, e super importante na trama, quais foram as ideias por trás da criação dele?

R: Muita gente não acredita quando eu falo que sou escritor improvisador, que eu só sento na frente de um processador de texto e escrevo. Pode parecer que estou me gabando, mas isso, no tanto que já me ajudou, também me prejudicou. O caso de O dia de Saturno eu tinha o conceito dos monstros que acordam no sábado, um mundo apocalíptico, e só. O resto foi improviso. Surpreendentemente me rendeu uma etiqueta de semifinalista no Prêmio ABERST de literatura, na categoria de Narrativa Longa de Horror. Vicente foi uma alegoria. Ele nasceu porque tinha que nascer, tal como acontece com todos os meus outros textos. Eu tenho um conceito, tenho a fórmula narrativa na cabeça, então eu escrevo. Sou o Chico Xavier da ficção bizarra. Ou o Professor Utônio das Meninas superpoderosas, se preferir; eu jogo açúcar, tempero e tudo o que há de bom, mas acidentalmente — quase sempre, na verdade — adiciono o Elemento X. Aí a magia acontece.

Não podemos esquecer também do cão, o fiel aliado da Liliane. Há algum segredo a respeito da criação dele?

R: A relação óbvia seria atribuir ao Eu sou a lenda, e é verdade. Simples assim. Fenrir foi totalmente baseado nisso. No livro do Matheson é bem diferente do filme (e recomendo fortemente a leitura) essa parte do cachorro, mas o cerne da coisa está lá, o que representa muito o animal da minha história. Nos feedbacks que recebo do livro, Fenrir é o mais amado da história. É a estrela do show. Curiosamente, por esses tempos aí, descobri uma novela do Harlan Ellison que se chama A boy and his dog (O menino e seu cachorro, em tradução livre), que lembra alguma coisa do Saturno, embora essa história vá para um caminho bem diferente. Como eu escrevi o livro antes de ter conhecimento da novela do Ellison, não posso dizer que me influenciei por ele. Mas poderia ter sido assim.

Obs.: “Fenrir” é o nome de um satélite menor do planeta Saturno. Eu dou outra explicação no livro, mas a trivia é justamente ter essa lua orbitando a protagonista. O Saturno da história é por causa do planeta e por causa do sábado. Sábado em inglês é Saturday. O dia de Saturno. Saturn’s day.

Sobre a ambientação, tentando não entregar muito sobre o que se trata o dia de Saturno, você pode nos falar algo sobre a ideia pós-apocalíptica do mundo?

R: O dia de Saturno nasceu de dois estopins na minha cabeça: primeiro, a série The Walking Dead estava no seu auge, lá pela terceira ou quarta temporada, eu acho. Eu era bastante fã, muito mesmo, porque a temática pós-apocalíptica sempre me fisgou. Assim sendo, acabei sentindo muita raiva quando os zumbis do TWD pararam de ser um real perigo. A partir de certas temporadas, me parecia que os zumbis eram paisagem, só para dizer que tinha monstros ali. Carl, um guri de 12/13 anos lidava facilmente com uma das criaturas sem nem suar. Quando que, no começo da série, Rick tomava um sacode de ver estrelas dos zumbis corredores. Por isso, em O dia de Saturno, queria fazer um monstro desgraçado, que levantaria em apenas um dia da semana, mas quando acordasse, seria um inferno em plena Terra. E para fazer isso funcionar bem, eu tive que dar umas pinceladas na narrativa a fim de fazer isso se concretizar. E por segundo, e não menos importante, o jogo de PlayStation 3, The Last of Us, havia acabado de lançar e eu me apaixonei pela narrativa, pela melancolia, pela tristeza. A mensagem ali, naquela trama, era tudo o que o The Walking Dead queria ser e não conseguia. Em mim, isso teve o efeito necessário para escrever o meu primeiro livro.

Diego, que dicas você dá para os outros escritores que também querem publicar seus livros?

R: Publiquem muitos contos, façam o melhor trabalho que puderem com histórias pequenas. Apressar publicação, querer unicamente ver os textos no papel, ah, não é um bom negócio. Se o escritor gosta de fato de escrever, ele vai ter uma vida inteira pela frente, verá muitas obras serem publicadas. Garanto que não quererão olhar para trás e ver seus trabalhos sendo maltratados ou feitos de qualquer jeito. Recomendo calma e paciência. Um livro solo é maravilhoso, mas não há nada de errado ser um contista. Resumindo: treine primeiro em narrativas pequenas, depois avance para as maiores.

Obs.: Cuidado com as editoras picaretas.

Obs2.: Não seja turrão nesse mercado. Temos muito, mas muito a aprender. Mesmo escritores premiadíssimos como o Harlan Ellison, que eu já citei aqui, diziam que ainda estavam aprendendo. Então, até o dia que eu ganhar um Nobel de Literatura, aprenderei o que me ensinarem.

Obs3.: Tente ser original. A gente quer ler um autor novo, não mais uma cópia do Stephen King ou do Lovecraft. Queremos diferentões.

Quais os seus planos e projetos futuros? E por onde podemos acompanhar seu trabalho?

R: Este é um terreno perigoso de se estar entrando, já que enquanto o trabalho não foi publicado, pode acontecer de dar zebra e ele não ser publicado. Mas, assim, posso dizer que eu estou com um livro novo engatilhado numa excelente editora. Também muitos contos suspensos por causa da pandemia. Exemplo disso é a versão física do “Multiverso Pulp: ópera espacial” e o “Multiverso Pulp: horror”. Esses aí são garantidos e tal, mas os volumes do multiverso “Alta Fantasia, Multipunk e Investigadores do Sobrenatural”, ainda estou escrevendo e pretendo submeter.

Fui convidado pela Editora Diário Macabro para ser um dos colunistas do seu Blog, e irei falar sobre “Mundos possíveis da ficção”; a cada semana escreverei sobre clima e ambientação de histórias distintas da literatura ou outras mídias.

Os leitores podem conhecer meu trabalho através do meu instagram, falando direto comigo, pois terei o maior prazer em conversar com quem quiser trocar uma ideia. Mas se sentirem vergonha, podem procurar por Diego Mendonça na Amazon. Encontrarão muitos dos meus trabalhos. Também no catálogo da Editora Diário Macabro.

Recentemente lancei uma coletânea colaborativa com um escritor Fábio Aresi. Ele é excelente, um dos melhores que conheço, e é daqui de Porto Alegre também. É uma coletânea de 6 contos de mau gosto; 3 contos meus; 3 do Fábio. Quem gosta de Chuck Palahniuk e Kurt Vonnegut, vai se deliciar.

Uma última mensagem para os nossos leitores?

R: Quero deixar um abraço para todos os meus leitores e leitoras, que são maravilhosos e maravilhosas. Também digo: leiam nacionais. Apesar do que a maioria pensa, o fantástico brasileiro vai muito bem, obrigado. Há coisa finíssima sendo produzida aqui na Terra do futebol e samba. De verdade. Eu era um super cético, hoje vejo como eu estava muito errado.

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