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Literatura Proibida para Crianças

Para uma criança, a literatura é o mais importante refúgio. A fantasia tem como efeito criar um ambiente controlado em que, principalmente crianças, podem experimentar sentimentos complexos como perda, morte, separação, rejeição e medo. Quando o sentimento é complexo demais, ou duro demais, o máximo que pode acontecer é a criança ficar em dúvida e questionar os pais a respeito. Sendo essa interação entre pais e filhos promovida pela literatura podendo ser extremamente saudável para ambos. Quando adultos afastam as crianças desse ambiente controlado, elas são obrigadas a experimentar de maneira direta todos esses sentimentos, sem nenhum tipo de preparação prévia. A leitura possibilita o contato com pessoas e culturas diferentes, expandindo o universo do leitor para muito além do seu convívio e experiências pessoais. Crescer sem acesso a todas as possibilidades que a literatura proporciona, contribui para o desenvolvimento de problemas sociais recorrentes, como preconceito, intolerância, depressão, falta de empatia, além de gerar adultos que se apegam às próprias fantasias tardiamente para tentar compreender sua realidade e dar razão a sua existência.

Luísa Geisler, cujo livro “Emfim, Capivaras” foi proibido na Feira do Livro de Nova Hartz

O poder metafórico da literatura, em especial da fantástica, é uma de suas ferramentas mais poderosas. Por ela, é possível demonstrar e tratar de qualquer assunto, seja complexo ou raso, de formas variadas, alcançando-se qualquer tipo de público. Quando uma criança está se preparando para dormir e ouve um barulho no escuro, ela não tem o mesmo discernimento que adultos para presumir que se trata do metal ou madeira dilatando por causa da variação climática. A primeira coisa que ela irá pensar é que se trata de um monstro, e então irá cobrir a cabeça para ficar a salvo.

Em um exemplo ainda mais prático de como é criado esse refúgio dentro da literatura fantástica, há o relato de uma criança que era abusada por um tio. Ao ser levada ao psicólogo, a criança contou que não entendia por que, mesmo amando tanto o tio, ele a machucava. O psicólogo, conhecendo o valor da fantasia, contou para a criança a história de uma raposa que amava seu amigo lobo. Ora, eles eram iguais, afinal; quatro patas, focinho, cauda. Quando tentou se aproximar, porém, o lobo acabou machucando a raposa. A criança entendia claramente a diferença entre um lobo e uma raposa, e a história fez sentido para ela. O lobo era muito maior, mais forte. Sua natureza era de um caçador territorialista. Em suma, ele era perigoso, e assim, estava claro para a criança que ela precisava se manter afastada do tio. O psicólogo escapou para o terreno seguro da fantasia, mesmo que relatando uma história violenta, para ajudar a criança compreender a realidade.

Há quem acuse a literatura fantástica de ser escapista; ou seja, uma literatura que faz com que o leitor esqueça dos problemas do mundo real durante a leitura, transformando-o em um eterno alienado. No entanto, a verdade é justamente o oposto. A literatura fantástica nos ajuda a compreender a realidade de maneira eficiente e variada justamente pelo uso da metáfora. Já dizia Tolkien sobre a questão: “é errado julgar o prisioneiro por sonhar com o mundo lá fora?”.

O artista britânico Jim Cheung, coautor de “Vingadores: A cruzada das crianças”.
Foto: ©Luigi Novi/Wikimedia Commons

A suspensão da descrença é um efeito almejado pelos escritores em seus livros, ou seja, é um estado em que o leitor aceita o que está escrito como real, e é algo com uma relação muito próxima com a questão da verossimilhança interna. Tolkien também falava sobre não acreditar na suspensão da descrença; ou seja, ele não acreditava que, durante a leitura, o leitor suspendesse sua descrença para ler fantasia. Para ele, o que acontece é algo diferente: o leitor não deixa de saber que o que está lendo não é real. A fantasia (e a literatura como um todo) é uma ponte para o real; é uma arma contra o desconhecido, pois preenche os vazios da lógica e da razão em seu estado puro e brutal, trazendo todo conforto e chance de aprendizado gerado por essa fuga, escape, escudo, ou como achar melhor.

Mas e quais são os limites? O que eu posso mostrar, de fato, para uma criança?

Dentro da literatura, não há limites. Qualquer ato ou decisão que tomamos é baseado na soma de predisposição e influência do meio. Uma criança, ou mesmo um adulto, só vai reproduzir violência quando uma questão de predisposição, desenvolvida na concepção, se une a uma vida cercada de violência, seja lá qual tenham sido os inúmeros aspectos de tal violência. O mesmo vale para sentimentos bons. Nem o mais belo livro do mundo irá transformar uma criança (ou qualquer pessoa) em alguém carinhoso se o meio em que ela está envolvida não praticar os tais gestos de maneira genuína e sincera, a permitindo assimilar em seu próprios gestos o que conheceu apenas através da ficção.

J.K. Rowling, porque uma mulher sendo bem-sucedida com um livro sobre bruxos só pode ser satanista.
Foto: via Wikimedia.com

A literatura pode inspirar a forma como uma ação acontece, a maneira como acontece, mas nunca será sua causa. Ela é a máscara moldada com a aparência da sociedade na qual foi criada, é espelho dela e das verdades que a criam. É mais fácil dizer que os dois jovens de Columbine entraram atirando no colégio porque ouviam Marilyn Manson do que buscar entender a raiz do problema. Provavelmente, a música era um dos únicos refúgios que esses jovens tinham para os seus sentimentos, e isso pode muito bem ter atrasado a tragédia, em vez de garantir sua concretização. Por sua vez, o julgamento que podem ter sofrido por gostarem de alguém tão peculiar sim, é um fato que pode ter sido o catalisador de tudo, pois os expunha à realidade do mundo sem nenhum tipo de preparação ou entendimento sobre. A fantasia age, assim, como anticorpos para a realidade; uma vacina que, como tal, é feita da própria doença. O vício em jogos eletrônicos é considerado uma doença pela OMS, porém, jogos são uma forma de arte, uma forma de fuga, de escape, de refúgio, e, portanto, apenas o sintoma de algo ainda mais grave que acomete nossa sociedade como um todo.

Portanto, caro leitor, sempre que você ler a notícia de que um livro foi proibido, recolhido de uma feira, ou que uma obra de arte foi destruída, que jogos são responsáveis por crimes ou são formas de doença, lembre-se do significado disso. Da ignorância e do crime que representam tais atos contra crianças, jovens e, enfim, contra toda a nossa sociedade. Destruir uma obra, proibi-la ou censurá-la é apenas mais um dos aspectos da violência da qual a literatura e a arte são um dos poucos refúgios disponíveis.

Imagem da capa: ©Kimberly Van Dam

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