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Nightflyers – space opera ou soap opera?

Baseada em uma novela e série de contos de George R.R. Martin – e adaptação cinematográfica homônima de 1987 – a série televisiva Nightflyer, do canal SyFy, é uma enciclopédia de referências de ficção científica e horror. Porém, além de contar com ótimos valores de produção e sequências incríveis de terror grotesco, a série foi um sucesso essencialmente por deixar o espectador desejando revisitar os trabalhos nos quais se baseou.

Supervisionado, escrito e (as vezes) dirigido por Jeff Buhler, a minissérie se passa em 2093 na Nightflyer, uma nave espacial que está saindo do sistema solar para estabelecer o primeiro contato com uma raça extraterrestre inteligente. Na esperança de que esses alienígenas presenteiem os terráqueos com um conhecimento que permita salvar nossa espécie da extinção iminente, mesmo que a culpa seja toda nossa. “Nós somos um vírus que matou seu hospedeiro, e estamos procurando por um novo hospedeiro para infectar”, diz Rowan (Angus Sampson), o exobiólogo da nave.

Respeitando as ideias iniciais de George R.R. Martin, Jeff Buhler e seus colegas criaram um grupo de personagens amplos. Dentre outros, temos o protagonista Karl D’Branin (Eilon Mackin), um astrofísico casado que deixa a família pelo bem da ciência; o esquivo capitão Roy Eris (David Ajala), que lidera o grupo sem nunca deixar sua cabine, interagindo (e espionando) com os personagens através de um holograma; Lommie (Maya Eshet), uma pessoa gender-fluid que é cyber technician (que conecta com computadores por uma conector neural), melancólica e com um passado confuso; Thale (Sam Strike), um telepata estigmatizado e excluído; e, finalmente a verdadeira protagonista (das produções de Martin), Malantha Jhirl (Jodie Turner-Smith), uma mulher modificada geneticamente para ter desempenho superior no espaço, mas que acabou sendo, muitas vezes, representada como uma Barbarella hiperssexualizada.

A representação de Malantha ao longo dos anos foi alterada para, segundo os editores de Martin, “acompanhar as tendências do mercado” e ele, como autor, mesmo que tivesse poder sobre tais decisões, absteve-se do debate. Em seu blog pessoal, George R.R. Martin fez uma publicação, juntamente com a divulgação do seriado, explicando para seus fãs o que acontecera no passado e como o novo seriado seria diferente.

Martin diz que, pela primeira vez, a personagem será adequadamente representada. E ele tem razão. Nas adaptações anteriores as atrizes escolhidas (e até as mulheres ilustradas) sempre eram brancas e faziam o papel da mulher frágil, o que vai de encontro a descrição oferecida pelo próprio autor:

Jovem, saudável, ativa, ela tinha uma vibração que os outros não alcançavam. Era grande em todos os sentidos – uma cabeça mais alta que qualquer outro a bordo, corpo largo, seios grandes, pernas compridas e fortes, músculos que se moviam suavemente sob uma pele preta como carvão reluzente. Seus apetites também eram grandes. Ela comia o dobro de qualquer um de seus colegas, bebia muito sem jamais parecer embriagada, se exercitava todos os dias durante horas com equipamentos que levara a bordo e instalara num dos depósitos de carga.

O seriado nunca perde a chance de trazer referências clássicas da ficção científica, como a enorme gaiola de Jurassic Park, usada para transportar o humano telepata; o computador de índole duvidável, que, assim como Hall, de 2001 Uma odisseia no espaço, é representado por um olho vermelho brilhante; ou até mesmo frases soltas de filmes e livros, como quando Rowan diz “Muito trabalho e pouca diversão faz de Jack um cara bobão”, em uma referência direta a O Iluminado, escrito por Stephen King e adaptado e dirigido por Stanley Kubrick. As constantes referências ligam a série a um subgênero da ficção científica conhecido como “Haunted House in Space”, ou seja, algo como a sensação de suspense e terror de uma casa amaldiçoada espacial, bem ao estilo de Alien, Solaris, O Enigma do Horizonte e muitos outros.

Infelizmente, porém, o show nunca alcança o patamar de seus ídolos, devido a uma simples falta de originalidade. O excesso uso de referências funciona bem, mas é apenas estético. Essa fórmula funciona bem quando somada a personagens marcantes e originais, mas, nesse quesito, Nightflyers pecou. Como já dissemos, mesmo tendo em mãos uma personagem incrível como Melantha, eles escolheram retratá-la da forma mais batida da ficção científica: uma mulher com grande apetite sexual e pouca profundidade psicológica.

O roteiro acaba sendo uma coletânea de sustos e sangue que se repete mais ou menos a cada 7 minutos, feita provavelmente para sincronizar com os comerciais televisivos – uma fórmula que é muito usada nos terrores atuais feitos para a TV.

Se considerarmos o formato televisivo, isso faz sentido, mas limita a produção de uma narrativa intensa e termina por forçar estratégias tediosas para reconectar o espectador à trama. Depois que você descobre essa periodicidade de sustos, o seriado até pode surpreender com o que acontece, mas nunca com o quando. Ou seja, se torna previsível como um Scooby-Doo reverso.

Um outro ponto que chama muita atenção negativa para o seriado é a sua suposta falta de tempo. Todos os episódios e personagens estão sempre em situações de suposta urgência, mas nada nunca leva a nada. Por exemplo, no final do terceiro episódio há uma grande revelação que sugere uma mudança de rumo no show, mas, no seguinte, ela já não é mais significativa e os personagens retornam para suas rotinas de desespero sem causa.

Enfim, recomendamos o show como um entretenimento leve. Nightflyers é ótimo para reviver uma nostalgia de ficção científica e apreciar alguns clichês. Só não vá esperando um Game of Thrones do espaço. E lembrar que é uma produção do canal SyFy ajuda bastante nessas horas.

Afinal, não queremos ver ninguém buscando uma máquina do tempo para ganhar essas horas de volta!

 

 

Texto traduzido e adaptado de: Vulture e GRRM.

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